sexta-feira, 2 de maio de 2008

Adeus, Galiza!


Manuel, Correia Fernandes, Arquitecto

















A Galiza já não é o que era. Para seu bem e para desgraça nossa, Portugal e, sobretudo, o Norte de Portugal continua a ser o que era pobre! Os números já não falam só. Gritam e gritam bem alto a nossa contínua perda em tudo quanto são valores de bem-estar, qualidade de vida, progresso e crença no futuro. Resultado: hoje, vive-se melhor na Galiza do que no Norte de Portugal.

Há alguns anos, a situação era a inversa. Perante os factos, é possível que tenham acontecido três coisas ou ambos crescemos mas eles cresceram mais, ou eles cresceram e nós não, ou eles também não cresceram mas nós andámos para trás. Talvez tenha acontecido de tudo um pouco mas a verdade é que, hoje, já fomos ultrapassados pela ex-pobre Galiza e em alguns casos, até já fomos ultrapassados.

Razões? Haverá, certamente, muitas. Umas conhecidas, outras menos e outras, ainda, nada conhecidas ou que, pelo menos, não gostamos de invocar. A verdade é que de um e outro lado da fronteira - que até já nem existe - olhamo-nos de modo distinto.

Do lado de cá, sempre tendemos a desvalorizar as diferenças. Quando nos favoreciam, achávamos que era natural que assim fosse! No fundo, a expressão "trabalhar que nem um galego" representava para nós, a tola convicção da nossa ancestral, injustificada e quase aristocrática "superioridade". Quando (as diferenças) nos desfavoreciam, atirávamos as culpas para Madrid que protegia artificialmente a terra de Franco ou para Lisboa que nos roubava o pão da boca. Culpa nossa? Não. Isso nunca!

Do lado de lá, tudo era inverso. Ali, as diferenças entre Galiza e Norte de Portugal, sempre foram justamente valorizadas. A começar pela língua e a acabar nas "marcas" nortenhas de suposto prestígio mundial como era o caso do Porto/vinho, do mítico Douro ou do Porto/cidade. Mas nunca estas diferenças foram motivo de inveja ou, sequer, de justificação para o atraso.

Em todo o caso, houve tempos em que a aproximação foi motivo de grande esperança. É verdade que o entusiasmo foi sempre muito maior do lado de lá do que do lado de cá. Mas houve excepções (raras e honrosas) e, muitas vezes, contra tudo e contra todos, os sonhos comuns foram transformados em projectos concretos e viáveis e a que só faltava o OK de "quem mandava" . Mas a realidade era outra e era a de um triste e já velho fadário OK imediato do lado de lá porque "quem mandava" estava lá, no sítio, e do lado de cá, a clássica e interminável corrida para Lisboa, mendigando um OK que nunca mais vinha ou que, quando vinha, já vinha tarde porque "quem mandava e manda" continua, ainda hoje, a estar fora do sítio!

E foram anos de esperanças goradas, de ideias desperdiçadas e de projectos abortados! Será, isto, pessimismo em estado puro? Será, isto, pura maledicência? Será, isto, puro derrotismo? Talvez! Mas, tal como os factos, os números estão aí para responderem!

A verdade é que hoje a situação só é idêntica à de antigamente no facto de nos continuarmos a olhar de ambos os lados da fronteira - que continua a não existir - de modo igualmente diferente é que a Galiza já não espera por nós e até já a vimos partir para outra: definitivamente, a Galiza cansou-se de esperar e já nem, sequer, arrisca pensar se o que nos falta é capacidade de decisão (localizada onde quer que seja) ou qualquer outra coisa. Mas, legítima, claro. A verdade é que não a quisemos no momento certo e ainda nem sequer sabemos se, algum dia, a vamos querer ter!

1 comentário:

Filipe Coelho disse...

Tudo se resolveria de uma forma: Regionalização. Estou convicto que ela chegará. Mais tarde do que nós nortenhos desejaríamos, mas virá. E quando vier, quando não tivermos gentes de fora a mandar na nossa terra, aí poderemos iniciar uma nova era. Aí, quando a Galiza perceber que finalmente temos algum poder de decisão, virão ao de cima a história, a cultura, a língua galaico-portuguesa, as tradições, as paisagens e as gentes comuns.